A relação entre Estados Unidos e Ucrânia, outrora um pilar da segurança europeia, transformou-se num campo minado de tensões geopolíticas em 2025. No segundo mandato de Donald Trump, o apoio histórico de Washington a Kiev deu lugar a uma retórica agressiva, alinhamentos suspeitos com Moscou e uma redefinição turbulenta das prioridades americanas. “Um falso amigo é pior que um inimigo declarado”, diz o velho adágio, e a Ucrânia é quem hoje sente na pele a verdadeira dimensão dessa máxima. Seu maior aliado agora negocia diretamente com seu algoz, enquanto tropas ucranianas recuam no leste por falta de munição, e os líderes europeus tentam, de maneira hesitante, preencher o vazio deixado pelos EUA.
A guinada diplomática dos Estados Unidos não ocorre em um vácuo. A controversa cúpula entre Trump e Putin, realizada em Riad no início de 2025, trouxe memórias de um dos episódios mais sombrios do século XX: o Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939, no qual a Alemanha Nazista e a União Soviética dividiram a Polônia em esferas de influência, ignorando sua soberania. Assim como naquele evento, o que está em jogo em 2025 não é apenas a integridade de um Estado, mas a própria lógica de uma política de grandes potências que trata países menores como peças sacrificáveis no tabuleiro geopolítico. Ao propor um “cessar-fogo temporário” que inclui a neutralidade forçada da Ucrânia e o relaxamento de sanções contra a Rússia, Trump sinaliza não apenas uma mudança de prioridades, mas uma disposição perturbadora de legitimar a expansão russa em troca de ganhos de curto prazo.
Esse comportamento reflete uma visão profundamente transacional da política externa americana. A suspensão do Lend-Lease em fevereiro deixou Kiev sem munição suficiente para sustentar sua defesa, e Trump justifica o movimento com base em sua máxima de que “a Europa lucra enquanto os EUA pagam”. O argumento, no entanto, ignora os robustos esforços europeus, que já destinaram proporcionalmente mais recursos à Ucrânia do que os próprios EUA. A lógica por trás dessa estratégia parece seguir o princípio de que “quem quer rir tem que fazer rir”, como diria Tropa de Elite, mas a diplomacia internacional exige algo mais do que barganhas de curto prazo: ela requer confiança, consistência e respeito aos aliados.
Embora alguns analistas busquem paralelos entre a estratégia de Trump e a détente de Richard Nixon nos anos 1970 – quando os EUA se reaproximaram da China para isolar a URSS –, a realidade é que 2025 apresenta desafios muito mais complexos. O eixo sino-russo consolidado por anos de cooperação estratégica, com comércio bilateral na casa dos US$ 240 bilhões, é um obstáculo formidável a qualquer tentativa de divisão entre Moscou e Pequim. Ao adotar a retórica de Putin e marginalizar a Ucrânia, Trump corre o risco de reforçar a parceria que busca enfraquecer. A política das grandes potências muitas vezes termina por criar monstros que não pode controlar.
A Ucrânia, por sua vez, enfrenta o custo imediato dessa guinada. O abandono de Washington deixa Zelenskyy isolado, enquanto a Europa lida com suas próprias divisões e limitações econômicas. A soberania ucraniana, tal como a polonesa em 1939, torna-se uma vítima colateral em um jogo que prioriza o poder em detrimento de princípios. Resta saber se a Europa será capaz de agir com unidade para evitar o colapso de Kiev ou se o cenário atual marcará um ponto de inflexão: o retorno a um sistema internacional dominado por uma lógica de esferas de influência e pela indiferença aos direitos dos Estados menores.
Em 2025, o Ocidente parece descobrir dolorosamente que “um falso amigo com acesso às suas armas” pode ser mais perigoso que qualquer inimigo declarado. O que está em jogo não é apenas o destino da Ucrânia, mas o próprio futuro da ordem global construída desde 1945 – uma ordem que, sem o compromisso de suas grandes potências, pode desmoronar tão rapidamente quanto foi erguida.
Leonardo Fernandes: Cientista político, Mestrando em Ciência Política UFPI;
Johny Santana: Historiador professor dos departamentos de História e Ciência Política – UFPI.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
Ver todos os comentários | 0 |