Em depoimento prestado à Polícia Civil do Piauí , o ex-assessor do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI), João Gabriel Costa Cardoso , acusado de invadir o Sistema de Processo Judicial Eletrônico (PJe), confessou ter ajudado a fraudar mais de 100 processos, alguns deles resultando em prejuízos milionários. A oitiva foi divulgada nesta terça-feira (25) pela revista Veja.
No depoimento, João Gabriel manifestou interesse em firmar acordo de colaboração premiada e prestou todas as informações solicitadas, revelando como conseguiu acessar o sistema restrito do Judiciário piauiense. Ele foi preso em outubro do ano passado e denunciado pelo Ministério Público no dia 17 de janeiro. Veja o vídeo:
“Eu vi que no sistema tinha uma facilidade, entre aspas, uma vulnerabilidade, da mudança do e-mail do servidor, e com isso conseguiria gerar uma nova senha para ter acesso ao perfil daquele servidor”, afirmou o investigado.
Como iniciou a fraude
Segundo João Gabriel, ele entendeu que poderia ter acesso restrito a magistrados e analistas após atender a uma demanda para modificar o login de um desembargador. “Uma terceira pessoa ligada ao gabinete em que eu trabalhava, responsável por essas assinaturas, pediu que fosse criada uma senha do desembargador para que ele pudesse ter acesso aos processos e também passasse a assinar. Eu, como servidor, solicitei isso através do GLPI, para o TI do Tribunal, e o GLPI entrou em contato comigo informando que para solicitar a senha tinha que alterar o e-mail do desembargador, porque ele estava utilizando o e-mail pessoal, para o e-mail funcional. Ele me ensinou o passo a passo, eu fiz e aprendi como era a forma de alteração do e-mail”, detalhou.
Mais de 100 processos
O denunciado afirmou que ajudou a fraudar mais de 100 processos. “Tem uma planilha com mais de cem processos, salva em algum lugar que não está no computador”, disse.
Ele não indicou quanto cada integrante do esquema criminoso lucrava, informando que a divisão ficava por conta do intermediário, que fazia o contato entre ele e os advogados das partes interessadas nas fraudes processuais. “Sei o valor que eu recebia, essa pessoa que intermediava, era ela quem recebia, eu acredito que o advogado cobrava do cliente, o advogado já tinha acesso a algum valor dentro desse esquema, repassava para essa terceira pessoa, e a terceira pessoa me passava só o que era meu. Eu era a última pessoa”, colocou o ex-assessor do TJ-PI.
Denunciado
Na denúncia em que denunciou João Gabriel, o promotor Sávio Eduardo Nunes de Carvalho o acusou dos crimes de invasão de dispositivo informático na modalidade qualificada, falsidade ideológica, inserção de dados falsos em sistema de informação, corrupção passiva, violação de sigilo profissional e fraude processual.
Fraude contra a rede Ipiranga
Uma das vítimas dos crimes foi a rede de postos Ipiranga, que teve prejuízo estimado em R$ 7 milhões após perder uma ação de indenização fraudada por encomenda de donos de postos de combustíveis. Uma outra ação que pedia a condenação da empresa ao pagamento de R$ 11 milhões chegou a tramitar, mas os valores não foram pagos.
Operação Usuário Zero
Apontados como integrantes do esquema, já foram presos os advogados Carlos Yury Araújo de Morais e José Wilson Cardoso Diniz , além do empresário Luiz Augusto Machado da Cruz Paião . O namorado da prefeita de Luzilândia Fernanda Marques (PT), Paulo Sandro Rocha Amorim , mais conhecido como Paulo Caiano, também foi um dos alvos, mas não foi localizado e teve o mandado de prisão suspenso posteriormente.